segunda-feira, 27 de janeiro de 2014

Ejercito Despierta!

Em uma audiência criminal, chega o momento em que o juiz faz perguntas ao réu quanto à sua pessoa. O objetivo das indagações é saber o histórico de vida daquele indivíduo, constatar se tem família, se estudou e etc.

Na extravagante maioria dos casos, o perfil do réu é o mesmo.
Alguém que nasceu e cresceu em um núcleo mais propício para o crime.

Uma menina chupava dedo até os 5 anos. O pai dela, já preocupado, pensou em tomar uma atitude radical para que aquilo cessasse. "Vou engessar as duas mãos dela, para que assim, inevitavelmente, ela pare" - pensou.  Antes de agir, foi falar com a pediatra da criança que opinou que ele não agisse dessa forma, pois correria o risco de sua filha sofrer traumas relacionados à perda no futuro.

Um réu, numa daquelas audiências, tinha 16 anos e quando era criança passou fome. Nunca soube sobre seu pai, viu sua mãe se prostituir todos os dias com vários homens por R$ 10,00 que, no lugar de comida, eram convertidos em crack.

Uma menina, um réu, eu.
Eu pensei: Uma menina de 5 anos pode sofrer graves consequências psicológicas em razão de ser obrigada a parar de chupar dedo. E um menino de 16 anos, com esse histórico de vida? Quais as consequências psicológicas?

O fato é que ninguém se pergunta isso, porque a resposta incomoda quem acha que é matando que resolve.
E ainda há a premissa "Direitos humanos só para humanos". Que humano pensa assim, pelo amor de Deus?
Se você acredita que um menino como esse está fora do sistema, da sociedade, do mundo, que ele não é humano..
E você? É o que? Você que nasceu com casa, comida e roupa lavada; que abre a boca pra dizer que "há pessoas que passaram fome e nunca roubaram". Sim, há. E eu admiro. São excepcionais.
Quando você abre a boca pra dizer: "eu nunca faria o que esse menino fez". Você não é esse menino. Olha sua casa, sua cama, seus amigos, seus pertences... Sua realidade: Realmente, você não faria. Você, não ele. Você não é ele.

A revolta maior em relação à violência deveria recair sobre o corresponsável pela situação em que nos encontramos hoje: O Estado.
Há estudiosos que chegam a defender, em determinadas situações, a absolvição de um réu POR INEXIGIBILIDADE DE CONDUTA DIVERSA. Ou seja, não tinha como ser diferente, não tinha como agir de outra maneira. A falta de inclusão nos mais diversos setores sociais, como saúde, lazer, assistência e educação, formou aquele ser HUMANO (SIM, MIL VEZES HUMANO), moldou uma pessoa para a prática de determinadas condutas.

Por favor, por tudo, não me venha falar em redução de maioridade penal como solução.
Eu coloquei o caso do menino de 16 anos propositalmente para poder falar também que, na minha opinião, se ele for para o cárcere privado brasileiro atual só lhe sobram duas opções: morrer ou sair pior.
Você, super-humano, talvez espera que ele morra.
Eu desejo que você retire toda a concentração daí e coloque no Estado.
Dizer que a lei é fraca? Lá, na fraqueza de 1988, diz uma premissa bem rasteira: "Todo o poder emana do povo, que o exerce por meio de representantes eleitos ou diretamente, nos termos desta Constituição".
Foi mal, mas quem é mesmo o fraco?
É, povo.. 2014 não vai deixar de ser o ano com muitos feriados, nem o ano da Copa, nem o ano do cavalo e nem o ano de eleição.
O problema é do país, mas falando especificamente de Fortaleza, as manifestações tinham quase parado.
Foi só um fogo para tanta gente e eu odeio observar isso.
Não vamos deixar isso morrer.
A mídia, sempre tão dominante, parou de falar sobre o assunto.
Eles perguntam o que você espera do último capítulo da novela ou quem você deseja ver no BBB nº mil.
E você, cegamente, não fala em outra coisa a não ser na novela e no quanto está caro para blindar seu carro do ano, mas você tem que blindar,
afinal, Fortaleza está "sem condições, viu, aff".
Não sejamos tão rasos.

Voltemos para as ruas!



Raquel

quinta-feira, 9 de janeiro de 2014

Palavras-chave

Humano, humanidade, humanização.. Essas palavras sempre me remetem a bondade, filantropia, consciência, Ser. 

Mas a gente sabe que se tratando do Homem as coisas não são tão bonitas assim. Nós, seres humanos, somos naturalmente bons e ruins. 

Não sou seguidora do discurso maniqueísta. Ainda acredito que cada um tem um pouco de cada e um mais de um. Isso é consequência da criação que tivemos, do instinto que há dentro de cada um e do caráter que fomos formando ao longo de nossa caminhada. 

O fato é que cada ser humano é único e o que é bom pra mim pode ser ruim pra você. Há pessoas que ficam inconformadas com o estilo de homem que gasta não-sei-nem-quanto de dinheiro em um carro de som e faz desse equipamento um filho que grita um determinado estilo musical. 

Eu não gosto. Ele gosta, ele ama. Eu não entendo. Não, não mesmo. Ele entende.

A verdade é que eu não preciso entender nada, você não precisa entender nada. Se ele entende e está realizado, tudo bem, tudo certo. Cabe a mim e a você apenas respeitar.

Respeito é a palavra chave dessa vida.

O respeito desencadeia mil outras virtudes e solidifica qualquer tipo de relação. Eu não preciso concordar com você para respeitar sua opinião, sua decisão, seu estilo e seu modo de agir. Eu demonstro as minhas opiniões, decisões, estilo e modo de agir e você não precisa concordar comigo para me respeitar.

Mas o ser humano é naturalmente bom e ruim, como consequência da criação que teve, do instinto que há dentro de cada um e do caráter que foi se formando ao longo da caminhada... E a gente desrespeita, a gente machuca, é machucado, erra, tropeça, bate, apanha, chora, ri, perdoa.

Perdão é a segunda palavra chave dessa vida. 

Perdoar é uma virtude que poucos fortes tem. É uma decisão que se transforma em sentido.Você não acorda perdoando. Você decide perdoar. E quando você perdoa, você desapega. Você fica livre.

Liberdade é a terceira palavra chave dessa vida. 

Ser livre é poder ir e vir quando e para onde eu quiser, da maneira que eu quiser, sem me prender a nenhum rótulo ou imposição social. É ser quem eu quero ser, estar com quem eu quero estar, é satisfazer a minha vontade, que você vai ter que respeitar.

Respeito é a palavra chave dessa vida.

Raquel - Novis 2014! Rsrsrs

terça-feira, 24 de dezembro de 2013

e 2013 foi assim

Deu um faniquito louco de falar/escrever sobre esse ano turbulento, então resolvi reativar esse blog amado e saudoso.

2013 foi um ano de mudanças, literalmente. E, junto com essas mudanças vêm alegria, felicidade, expectativa, medo, frustração e saudade, muita saudade.

Sempre fui uma pessoa com sede de vida, de gente, de novidade, de mudança, de mundo... talvez minha origem interiorana do sertão explique isso. Desejei muito e fiz por merecer essas mudanças. Foram dias e noites de dedicação e uma ansiedade sem tamanho, além de planos, planos e mais planos. Queria mudar, mudar de cidade, de atividade, mudar e vida. Pois bem, consegui! Tudo conforme o planejado. Mas, mesmo no planejado, sempre vêm as coisas fora de contexto, aquilo que você não planejou, mas que inevitavelmente faz parte da mudança. Foi um começo difícil, cidade nova e grande onde você conhece meia dúzia de pessoas espalhadas no tecido urbano, tende a te pregar umas peças. Era tudo meio desesperador, cada pequeno problema se transformava na coisa mais cabeluda do mundo, ainda mais comigo que tenho uma leve tendência a ser dramática. Sim, sou dramática, faço de um probleminha um problemão mas, por ter essa plena consciência, sei a hora de parar e pensar pra frente e encarar o problema sem olhar pra trás. Eu nunca olho!

Passado os primeiros baques, o desespero de não ter um ombro amigo, daqueles ali pra todo momento, que segura suas pontas, resolvi que tinha que parar de reclamar e de chorar, tentar não viver em função da saudade e encarar a selva de pedras com todos seus encantos que também amedrontam. Nunca gostei de sentir medo e resolvi que não iria começar a alimentar isso beirando os 30. E sempre tive problemas com falta de adaptação e de intimidade, por isso resolvi que iria logo criar intimidade e me adaptar a essa cidade.

Sempre fui uma pessoa de muitos e bons amigos. Como se diz, tenho amigos para todos os gostos. Isso era o que mais me doía, a falta deles. As mesas de bares que não eram mais frequentes e enormes, o telefone tocando 864327790 vezes ao dia, a ponto de me irritar, as noitadas que podia ter péssima música, zero paqueras, ser uma furada, mas que se estava com eles já era diversão garantida, um ombro amigo pra reclamar, outro pra chorar, outro pra rir e outro pra mangar, um pra falar de peido e outro pra falar de política. Mas aí, como diz essas frases de diário de adolescente: quando você se abre para o mundo, o mundo se abre para você. E foi assim, quase simples assim. Aos poucos, ou na medida que fui permitindo, São Paulo foi se abrindo para mim e me surpreendendo. Fui me abrindo pra essa cidade que sempre tanto me encantou e aceitando tudo de bom que ela tinha pra me oferecer. Meu Ceará que nunca me desampara também me deu alguns presentes em forma de amigos por aqui e o mestrado também foi tratando de colocar gente bacana no meu caminho e lá também tenho feito ótimos amigos.

O mestrado, ah o mestrado, real motivo da minha vinda para cá. Lembro do primeiro dia de aula, saí com uma enxaqueca dessas que só tenho em momentos de tenebrosa ressaca. Um professor tocando o terror, querendo mostrar o quão não sabíamos de nada e éramos indignos da matéria dele. Mas sou cearense e desisto é porra. Fiquei, me matei de estudar, AMEI a matéria e me saí super bem nas avaliações e com mais conhecimento. Esse mestrado me encanta a cada dia, a cada leitura. É um conhecimento profissional e pessoal diário. Mas também me inquieta, me perturba, me enlouquece, me faz achar que o mundo não tem solução. Mas aí são outros quinhentos.   

Agora estou eu aqui, sozinha no fim do ano em uma cidade ainda estranha e fazendo várias reflexões sobre esse ano que está no finalzinho. Mas uma amiga cearense vai salvar minha vida na noite de natal e uma amiga paulistana vai me levar pra badalar depois. E o réveillon, ah o réveillon, acho que serei abduzida em São Thomé das Letras – MG.

Diante de tantas reflexões, cheguei a mais uma frase de diário de adolescente: marés calmas não fazem bons marinheiros. Então é isso, que em 2014 continuemos a aproveitar as turbulências da vida para nos tornarmos melhor, sempre em frente e sempre pensando e agindo para deixar uma contribuição para esse mundo, pros que estão e pros que virão.

Não vou falar sobre natal, porque acho natal um caos, com todo esse consumismo absurdo e desnecessário. E também porque a pessoa passa anos sem escrever aqui e quando escreve quer bem dizer escrever a dissertação de mestrado.


Um beijo, gente e um 2014 com os desejos que estou levando para minha vida: o que for justo e necessário. 

Larissa! 

segunda-feira, 16 de julho de 2012

O Rio chegou!


Rio de Janeiro, 16 de julho de 2012.

“Tome cuidado com o que você deseja. Você pode acabar por conseguir.” Sacott Flanagen.

Eu sempre tive vontade de “romper” laços, sair da minha zona de conforto pra encarar o mundo e todos os bônus e ônus que ele me oferece. Sair de dentro da caixa e passar a pensar e viver fora dela, começar a praticar o desapego da forma mais abrangente possível. Essa vontade nasceu tímida e com muito medo dentro de mim e, por medo, eu fui deixando a vontade de lado por anos e anos. Eu queria partir, mas pra onde?

Um dia, chegou o Rio e eu cheguei no Rio.

Em junho ou julho de 2007 eu fiz minha primeira viagem ao Rio e, posso dizer que foi amor à primeira vista. Uma sementinha de amor pela cidade foi plantada no meu coração. Minha segunda visita ao Rio foi em meados de novembro do mesmo ano e, aí sim, posso dizer que a sementinha começou a crescer.
Muitas pessoas perguntam “porque o Rio?” e, por mais que eu tente explicar, às vezes elas não entendem. 

Na minha segunda visita ao Rio, fui à roda de samba do Negão da Abolição lá no Clube Guanabara. Nessa noite, depois de muita cerveja e muitas conversas uma ficha começou a cair, a sensação que eu tive foi a de acordar de um sonho looongo e profundo. Ali o mundo começou a ganhar novas cores e possibilidades, meus olhos tiveram a noção da imensidão de possibilidades que a vida me oferecia em uma nova cidade. Foi lá que eu pensei pela primeira vez em morar aqui. Sabe quando você olha aquela roda de samba e começa a pensar, pensar, pensar e chega à conclusão que você quer fazer parte daquela cidade, daquela mistura. Eu parava e pensava: é aqui que o Brasil acontece, é aqui que o Brasil se encontra. Aqui nasce a cultura, aqui nasce a música. Nessa cidade surgem muitas novas ideias, novas modas e é aqui que eu quero ficar. Quero viver e ver de perto tudo isso crescer, tudo isso nascer. Eu não quero e não preciso fazer parte diretamente disso tudo, mas eu quero estar perto pra ver e sentir a energia da transformação das coisas. Eu quero essa energia pra mim. De repente Fortaleza ficou pequena, a zona de conforto começou a ficar desconfortável e eu fui me libertando de tudo que me prendia.

As coisas foram caminhando, caminhando e no dia certo, na hora certa, Deus colocou a tão esperada oportunidade: uma vaga de emprego na cidade maravilhosa. Aos trancos e barrancos, com ajustes aqui e ali, com muita correria e com muito choro e angústia, o filho nasceu e o Rio recebeu mais uma moradora, EU! 

Os bônus e os ônus eu ainda conto por aqui, mas o balanço da maré da vida sempre vale a pena.

Beijos.

Amanda 

quarta-feira, 20 de junho de 2012

A volta dos que não foram


Como já dizia a parábola do filho pródigo: Um bom filho a casa torna. 

Aqui estamos nós. Depois de quase um ano sem postar, resolvemos voltar. Primeira quinzena de junho e eu com uma saudaaaade das minhas amigas, das nossas conversas nos bares de Fortaleza. Saudade daquelas conversas que só tem graça de existir no bar. Não tem graça você debater o socialismo cubano na padaria tomando capuccino. Deu saudade de ligar pra Larissa e dizer:

- Larissa, tá fazendo o que?
- Tô saindo da UNIFOR morta de cansada.
- Passa aqui e vamos tomar uma cerveja?
- Desce em 5 minutos que eu já to na Pontes Vieira.

Pronto! Sentávamos num bar pé de chinelo e conversávamos sobre todos os problemas dos mundos, o mundo dos outros e do nosso mundo. Era o cenário sempre perfeito para abrirmos nossos corações e nossos pensamentos. Deu saudade dessa "terapia" em conjunto feita semanalmente com minhas amigas. Por causa dessa saudade mandei e-mail para Larissa e para Rully pedindo para voltarmos com o blog e elas aceitaram prontamente.

Aqui estamos nós para nossa mesa redonda de amigos e amigos dos amigos. Para os amigos dos amigos que por aqui conversam com a gente, aqui vai um resumão do que aconteceu nesse quase um ano que passou. Eu fui embora de Fortaleza para morar e trabalhar no Rio de Janeiro. A Larissa se formou, trabalhou, trabalhou e continua trabalhando. A Rully noivou e está preparando a festança de casamento que sai em dezembro, esse talvez seja o maior trabalho dela, mas fora esse trabalho, ela continua trabalhando. No meio de tudo isso tem um montão de coisas, não cabe no blog, mas nós vamos contando aqui um pouquinho do que contaríamos na nossa mesa de bar.

Vamos sentando, podem encher o copo que nós vamos brindar!

Que os nossos filhos tenham pais ricos e mães gostosas. rsrsrs Um brinde à amizade!!

Sejam bem vindos que o bar está aberto novamente.

Beijos.
Amanda

sexta-feira, 29 de julho de 2011

O amor que sabe do tempo e do vento - Eliane Brum

Lendo os textos da coluna da Eliane Brum, me deparei com "O amor que sabe do tempo e do vento". Achei o texto tão lindo que eu fiquei sorrindo ao ler e, no final do texto deu vontade de soltar um "ôôôô que lindo".

Beijinhos no coração.


Dias atrás liguei para meus pais e os dois se divertiam com as dificuldades de expressar o amor que sentem um pelo outro. Acontece o seguinte. Toda manhã meus pais acordam, mais ou menos no mesmo horário, e ficam abraçadinhos esperando o sol entrar pelas frestas da persiana enquanto conversam sobre a vida. O desafio, agora, segundo minha mãe, que é mais despachada, é encontrar uma posição em que não doa alguma parte do corpo de um e de outro. Ora é a coluna do meu pai que se anuncia, interrompendo o beijo, ora são os joelhos da minha mãe que gritam embaixo do cobertor. Então, ele aos quase 81, ela perto dos 76, gastam alguns minutos encontrando uma posição em que é possível namorar sem dor. Acabam achando. Quando não param para rir da própria condição humana, o que também provoca algumas dores.
Para mim, a imagem do dia dos namorados, essa data tão comercial que acabou de levar legiões aos shoppings, é a de meus pais achando uma posição para se abraçar entre as dores de um corpo que viveu. Acho que o amor começa com som e com fúria, mas aprende na passagem do tempo o valor das pequenas delicadezas, as manias de cada um que irritam, mas que fazem cada um ser o que é. Aquela mirada terna e quase secreta em direção ao outro que faz uma bobagem qualquer, para mim vale tanto ou mais que o furor do desejo. Aprendi isso observando meus pais, primeiro com ciúmes desse amor onde eu não cabia, porque sabiamente eles mantiveram essa parte só para eles. Depois, com curiosidade científica e, finalmente, com ternura.
Desde que me entendo por gente, meus pais namoram. O que para mim foi por muito tempo algo misterioso, que exigia uma investigação que, por medo da descoberta, eu acabava sempre postergando. Por exemplo: por que as luzes da cabeceira trocavam de cor a cada semana? Em algumas noites eram vermelhas, em outras azuis e havia até madrugadas de verde. Eu perguntava, claro que perguntava, e a resposta era verdadeira, mas convenientemente sucinta: “Para variar”.
Meu pai deve ter sido o único pai do mundo que passou pela Disney, numa inusitada viagem de trabalho, comandando uma trupe de agricultores, e voltou de lá não só com brinquedos para nós, mas com baby-dolls para a minha mãe. Baby-dolls que corariam não apenas o Mickey, mas também os piratas do Caribe.
É também o único homem que eu conheço que dá rosas para a minha mãe no “aniversário de conhecimento”. Até hoje. Sim, “aniversário de conhecimento” é uma data lá em casa. Enquanto o poste embaixo do qual trocaram sussurros supostamente castos existiu, eles faziam visitas periódicas ao poste, como uma espécie de dívida de gratidão. Depois, foram miseravelmente traídos pela prefeitura. E o banco da praça onde trocaram confidências, e possivelmente algumas inconfidências, foi parar no museu. Não por causa deles, parece óbvio para todos. Menos para nós.
Tudo começou com o que eu chamo de “tijolaço” que minha mãe acertou na cabeça do meu pai. Minha mãe se finge de ofendida, mas sei que ela gosta da minha versão. Era terrível a minha mãe. Aos 13 anos ela viu meu pai passar com seu porte de soldado de chumbo e decretou: “Este vai ser meu”. Meu pai nem desconfiava, preocupado que estava com suas obrigações no internato, ele que trabalhava duro para pagar os próprios estudos, primeiro na limpeza, depois no cuidado dos alunos. Não adivinhava, mas já tinha o futuro decidido por uma pirralha com uma trança ruiva de cada lado.
Aos 15 dela, 20 dele, ela o avistou na festa de Sete de Setembro da paróquia da igreja matriz e despachou um correio amoroso em sua direção. Correio amoroso era a versão do torpedo no século passado. Era 1950, veja bem, no interior do Rio Grande do Sul, e ela tivera o desplante de escrever essa intimação. Sutil como uma ararinha azul num filme de zumbis a minha mãe: “Se for correspondida, serei a mulher mais feliz do mundo”. Meu pai espichou um meio sorriso em sua direção, o que deve ter lhe custado mais do que o passo que Neil Armstrong daria no final da década seguinte. Meu pai só foi aprender a sorrir muito mais tarde. Ensinado, claro, pela minha mãe.
Minha mãe se tornou mesmo a mulher mais feliz do mundo. E vice-versa. E nós aprendemos a vê-los sempre de mãos dadas andando pela cidade, no seu passo só aparentemente dissonante, minha mãe mais ligeirinha, atuando no miúdo, e meu pai com passadas lentas e firmes. Meu pai passeando pelos interiores de si, minha mãe novidadeira, auscultando os arredores. E, aos finais de semana, os dois executando o balé de décadas ao caminharem de mãos entrelaçadas para espiar as vitrines das lojas, fazendo de conta que elas mudavam, se abismando ora com a boniteza das peças, ora com o preço “pela hora da morte”.
Quando eu era criança, como já contei aqui, eles cumpriam também o programa familiar do domingo, no qual éramos generosamente incluídos, e que consistia em uma volta de fusca para ver as casas bonitas da cidade pequena. Sempre as mesmas, sempre dos mesmos. Lá em Ijuí eram os médicos, os fazendeiros e os empresários que tinham se dado bem no “milagre” econômico da ditadura militar que tinham casas bonitas. O resto se virava.
A vida deu e tirou de tudo do meu pai e da minha mãe, como em geral faz com quase todos. Roubou-lhes uma filha, deu-lhes outra da pá virada, a maior parte do tempo faltou-lhes dinheiro e sobrou trabalho, suspiraram de júbilo e de tristeza talvez na mesma proporção. Por muitos anos sonharam em fugir do verão de Ijuí, de onde até o diabo escapa lá por dezembro, mas não encontravam jeito. Quando juntaram umas economias, a casa que alugaram ficava na zona rural da cidade praiana, e em vez de gaivotas tínhamos galinhas. Mas nos divertimos mesmo assim, e virou história.
Como virou história a nossa primeira ida em família a um restaurante. Chinfrim que só, mas pisávamos em nuvens com nossas roupas de aniversário e sentíamos aromas de mil e uma noites. Para mim, nunca haverá um D.O.M. ou Fasano que se equipare ao restaurante do Primo. Desde então, e até hoje, qualquer prato seguido por “à Califórnia” é sinônimo de coisa muito fina lá em casa. A gente enchia a boca para dizer “à Califórnia” E até hoje meus pais adoram coisas “à Califórnia”.
Para mim e para meus irmãos era um choque descobrir que na casa de alguns de nossos amigos os pais não se beijavam nem arrulhavam. Nós achávamos que era uma lei da natureza que determinava, geneticamente, o modus operandi dos pais. Fiquei indignada quando disseram, uns anos atrás, que Hebe Camargo tinha inventado o selinho. Todo mundo sabe que foram os meus pais.
O amor é assim. Cheio de coisas sem importância que fazem uma vida. Acho que a sabedoria dos meus pais foi ter percebido que eram essas pequenas delicadezas o que realmente importava. Que os desacertos e as trapalhadas teciam os enredos das histórias que iam bordando a nossa pequena saga. Ninguém nunca achou lá em casa que era fácil viver, por isso o difícil assustava, mas não nos metia tanto medo assim.
Gosto de pensar, quando acordo pela manhã, que meus pais estão procurando, apesar das dores de outono, uma posição para ficar abraçadinhos. E, assim, encaixados de amor, falar da vida enquanto lá fora, como Erico Verissimo tão bem percebeu, ruge o tempo e o vento, cada vez mais vorazes.

http://revistaepoca.globo.com/Revista/Epoca/0,,EMI240896-15230,00-O+AMOR+QUE+SABE+DO+TEMPO+E+DO+VENTO.html

ANTES DAS FOTOGRAFIAS - Fabrício Carpinejar

Sofri com a separação dos pais. Carregava a sensação de que tinha sido difícil, percebo agora que foi um desastre. Ao mexer no baú da família para catar flagrantes da infância, encontrei o álbum de casamento dos dois. Capa dura, nomes dos noivos em relevo dourado, livro grosso para eternidade mesmo, resistente às traças e porões.

Fiquei intrigado no momento de folheá-lo. Tive que sentar e interromper a pressa.

Voltei no tempo. No papel vegetal entre as páginas, havia desenhado o contorno das fotografias. Copiei à mão cada imagem, colorindo depois. São mais de 50 folhas transparentes preenchidas, duplicando pai e mãe no altar, reproduzindo convidados e bastidores da festa.

Na época (mentalidade de criança ferida), fiz uma cópia reserva das cenas. Raciocinei que os dois não seriam mais amigos, jogariam duas décadas de casados no lixo e providenciei um backup primitivo com o lápis Faber Castell HB2. Ansiei preservar a história usando as armas do estojo de 1ª série. Aproveitei meu conhecimento de copista do Pernalonga.

Lembro que não dei mole na separação: briguei com os irmãos, esperneei no sofá, chantageei no carro, planejei greve de fome, renunciei futebol, peguei recuperação, chorei no mercado, passei recreio no SOE, ia de um lado para outro da sala ao quarto para diminuir a distância das palavras. Olha, coitados de Carlos Nejar e Maria Carpi, criei um inferno para reconciliá-los, demorei a constatar que o paraíso deles também não era o meu.

Diante do flashback, eu me pus a comparar o que fui com o que sou. Todos, quando pequenos, sofrem com o divórcio dos pais, indicativo de trauma, término da idealização e receio de parar num orfanato. E todos, quando maduros, consideram a separação necessária e natural.

É impressionante o quanto nos esforçamos para manter os pais juntos, e não realizamos quase nada pelo nosso casamento na vida adulta.

E se lutássemos para entender nossa esposa como defendemos nossa mãe? Se realizássemos metade da birra feita com o pai durante a despedida de nossa mulher? Se trocássemos o orgulho da cobrança pela cumplicidade emocionada do erro? Se desejássemos falar menos e ouvir a voz dela mais um pouco?

Se fôssemos meninos para sempre, nenhuma separação seria fácil. O amor não morreria fácil. O papel vegetal protegeria as fotos.

http://carpinejar.blogspot.com/2011/07/antes-das-fotografias.html

Um cheiro.
Amanda Klein